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Saramugo - Anaecypris hispanica

 
 

 

Algumas campanhas para defender espécies ameaçadas de extinção, como o Saramugo, espécie endémica no Guadiana, não olham a meios, atacando aquilo que "parece" ou que é do "conhecimento comum", sem olharem a factos científicos para fomentarem as suas opiniões.

O "papão" Achigã, peixe exótico de "costas largas", foi recentemente apontado na comunicação social (que cada vez se preocupa menos em investigar as notícias que publica e "bebe" todas as informações veiculadas pelas organizações ambientalistas como se tratasse de palavras divinas), como o principal responsável pela mais que provável extinção do Saramugo no nosso País e foi mesmo sugerida uma campanha para exterminar essa espécie exótica das nossas massas de água.

Fazendo "vista grossa" às reais causas das dificuldades das espécies autóctones, como a modificação do seu habitat e a poluição das massas de água que habitam, estas posições fundamentalistas, não fazem mais que desviar a atenção dos problemas reais e intoxicar a opinião pública contra tudo o que são espécies exóticas, mesmo que sejam as únicas que conseguem sobreviver nos ecossistemas alterados.

 Em vez de ajudar a canalizar esforços, em tentativas sérias que tentem preservar a espécie, estas organizações, apoiadas cegamente pela comunicação social, acham suficiente apontar as "baterias" das organizações estatais na tentativa de eliminação pura e simples das espécies exóticas - como se isso fosse viável - desviando a atenção e os recursos de outros possíveis culpados e de verdadeiras soluções para o problema.

Uma simples consulta a uma das principais Bases de Dados sobre espécies piscícolas - a  FishBase - fornece os seguintes dados sobre o Saramugo:

- Peixe endémico do Guadiana, com 7 cm de comprimento máximo, de reduzida longevidade e com uma baixa taxa de fecundidade. Ocorre em cursos de água de pequena profundidade, com corrente moderada e abundância de plantas submersas.

- É o peixe da Península Ibérica mais ameaçado devido à destruição do habitat e à poluição da água.

Como facilmente se pode comprovar, a tese do Achigã como "bode expiatório" da situação actual cai pela base e as dificuldades do Saramugo têm essencialmente a ver com o seu próprio percurso evolutivo, com a destruição do seu habitat através de alterações dos cursos de água onde prefere viver e com a poluição que estes sofrem.

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Em face desta campanha, o Conselho Técnico da APPA, ao qual tenho orgulho de pertencer, achou por bem tomar a seguinte posição:

COMUNICADO DO CONSELHO TÉCNICO

 

Têm surgido nalguns orgãos de Comunicação Social referências ao achigã como principal causa da fase crítica em que se encontra a preservação de uma espécie endémica: o saramugo.

 

A posição do Conselho Técnico da Associação Portuguesa de Pesca do Achigã e Defesa das Natureza (A.P.P.A.) sobre a matéria é a seguir exposta:

 

"A culpabilização do achigã como principal causa da rarefação de espécies endémicas, como o saramugo, é uma prática antiga em Portugal entre alguns académicos "fundamentalistas". É verdade documentada que a espécie em causa nas notícias - o saramugo:


i) se encontra ameaçado e em franco declínio populacional numa área de distribuição cada vez mais reduzida


ii) algumas das ribeiras afluentes do rio Guadiana, em particular o Vascão, apresentam alguns dos últimos redutos habitacionais da espécie.

 

Várias causas externas/climatológicas têm agravado essa situação (a seca que se fez sentir nos últimos 2 anos) principalmente na zona onde se situa o Vascão. Os níveis de água reduziram-se quase até à secura.

 

O saramugo sofre a competição por parte de outros ciprinídeos. Sofre predação por parte de vários predadores e só uma parte é que são peixes. A comunidade de chanchitos (Cichlasoma facetum) é lá das mais numerosas do país tratando-se de um peixe com grande capacidade de resistência a baixas concentrações de oxigénio dissolvido e elevadas temperaturas da água, o que ocorreu de certeza nos verões anteriores.

E por ser peixe territorial e protector das crias, não será nada fácil de expulsar.

 

Todavia, e de acordo com vários trabalhos científicos realizados sobre o saramugo, a principal ameaça à espécie reside na alteração do seu habitat, as pequenas ribeiras afluentes do rio Guadiana. O problema das espécies introduzidas, como o achigã, reflecte apenas o facto destas se encontrarem ecologicamente melhor adaptadas aos novos habitats criados pelo homem (sobretudo as albufeiras), habitats esses onde o saramugo não tem condições para proliferar.

 

Especificamente para o Vascão, a consulta da Carta Piscícola Nacional, recentemente publicada no site da Direcção Geral dos Recursos Florestais, Carta onde são publicadas todas as amostragens realizadas em cursos de água portugueses, nomeadamente no Vascão, permite confirmar nesse sistema em concreto uma presença residual do achigã nos vários locais amostrados, ou seja, como poderá o achigã ser uma ameaça para o saramugo no Vascão se lá não existe?

 

           Assim, atribuir as culpas do desaparecimento gradual do saramugo ao achigã é desajustado, injusto e falta à verdade. 

 

Afirmar que é possível eliminar totalmente as causas que levam ao declíneo do saramugo é irreal. Nem é isso que interessa discutir neste momento. O pensar que isso é possível é apenas uma tentativa de "marketing político". Se interessa salvar o saramugo (obviamente que sim) o melhor é garantir a sua continuidade em cativeiro. De certeza que não será dispendioso e que haverá meios materiais e humanos para o fazer. Basta que haja vontade.

 

O Conselho Técnico e a Direcção da A.P.P.A. estarão sempre disponíveis para debater esta questão sem demagogia nem fundamentalismos."

 

                                  

                                   Pelo Conselho Técnico da A.P.P.A.

 

                                  

                                               Dr. Alberto Reis

 

 

 No seguinte link, pode ler-se ainda a Posição da Direcção da APPA

 

Texto- Jaime Sacadura
 

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