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  Artigos - Técnicas
 "Imitações de Peixe - Shadow's e afins"
 
 

10 horas da manhã. O shadow, projectado por um lançamento ao longo da falésia rochosa, atinge a água quase sem provocar ruído. Após um momento de pausa, em que o peso do anzol o afunda alguns centímetros, uma série de toques com a ponteira, produz uma ascenção rápida e irregular que o faz saltar fora de água. Nova pausa, mais breve, seguida de outra sequência de animação rápida. De repente, uma silhueta poderosa cruza a água vinda de uma laje na parede de pedra da margem, na direcção do shadow.

O peixe pára a alguns centímetros da amostra. Só então me dou conta que, petrificado, parei a movimentação do shadow. Este afunda lentamente, com um movimento circular irregular, perto do peixe, que o observa com atenção. Dou um pequeno toque com a ponteira da cana. O shadow sobe abruptamente, provocando a reacção do peixe, que ataca. Ao sentir o seu peso na linha, ferro, com um movimento curto e seco.

O peixe, picado, salta fora de água. Um belo exemplar, que deve ultrapassar o quilo e meio. Com o motor eléctrico, afasto ligeiramente o barco da margem, para longe da parede rochosa que apresenta vários arbustos submersos. Destravo ligeiramente o carreto para compensar uma investida mais forte do peixe que procura a segurança do fundo, sem o que a linha fina se poderia partir. Após uma luta relativamente prolongada, acompanhada pelo som do travão do carreto e de mais dois saltos do peixe, agarro-o finalmente pelo lábio inferior. Uma rápida pesagem confirma a avaliação inicial, uma fêmea, com 1.850 Kg.

Libertada, regressa rapidamente à segurança da margem rochosa. Verifico a amostra que o ataque do peixe danificou irremediavelmente. Após a sua substituição, novo lançamento e repete-se o ciclo, em que aguardo com antecipação o ataque seguinte. No final da manhã, vários ataques e peixes depois, e reduzido a três shadows (Golden shinner - pretos com brilho dourado) lamento não ter trazido mais que um pacote para este fim de semana de pesca.

Este breve relato, passado no início de Março, no braço do rio Ponsul, na barragem da Idanha, à três anos, está gravado indelevelmente na minha memória. Foram dias de pesca como este, passados em várias barragens nacionais e espanholas, que fizeram da utilização desta amostra uma das minha preferidas.

Os anos passaram, e a minha maneira de pescar mudou. Já não utilizo tão intensamente este tipo de amostras, por vezes não tão intensamente como devia. A pesca de competição a isso obriga. O tempo é curto, as seis horas de cada dia de pesca passam a "correr". E com a escassez de peixe que por vezes aparentam as nossas barragens, sou obrigado a utilizar um leque bastante mais vasto de técnicas, na esperança de descobrir um padrão ou de apanhar algum peixe para safar a "grade". Mas, na pesca exclusivamente de lazer, é uma das primeiras amostras que utilizo e provavelmente a escolheria se só pudesse utilizar uma.
A sua incrível versatilidade permite a sua utilização em quase todas as camadas de água. Amostra de superfície e sub-superfície por excelência, pode ser também utilizada nas camadas inferiores com o auxílio do peso de chumbos fendidos, insert weights, pequenos jigs ou até como atrelado no empate carolina, substituindo o habitual lagarto ou minhoca.
 

Quanto a pormenores mais técnicos, gosto de utilizar este tipo de amostra com três desenhos ligeiramente parecidos, de três fabricantes diferentes: - Shadow da Mann´s, Power Jerk Shad da Berkley e Shad Assassin da Bass Assassin. Os dois últimos apresentam um desenho sensívelmente semelhante. Com excepção da cauda, bifurcada no Jerk Shad e afilada no Shad Assassin, o corpo é semelhante, apresentando na face ventral uma ranhura com menor espessura para acomodar o anzol, que deste modo fica "weedless" – não prende fácilmente a obstáculos – sem prejudicar a ferragem, pois não necessita de atravessar um grande pedaço de vinilo.
 Pode parecer absurdo, mas em zonas abertas, onde as prisões em paus e vegetação sejam mais improváveis, gosto de empatar estas amostras ao contrário, com o anzol virado para cima, a sair no dorso da amostra. Manias...

Cores mais utilizadas, Pearl White, Arkansas Shinner e Rainbow no Jerk Shad, Gold Pepper Shinner e Salt e Peeper Silver no Shad Assassin.

Já o Shadow apresenta uma concepção diferente. Desenvolvido com uma forma mais achatada, está preparado para trabalhar com o anzol em posição lateral. As cores mais produtivas têm sido o preto (Golden Shinner), o branco (Shimmering Shad) e o Chartreuse.

O empate é fácil. Basta introduzir o anzol pela boca, fazê-lo sair pelo olho, puxá-lo até o ângulo recto estar alojado na boca e espetar a ponta numa das ranhuras laterais ( não esquecendo o dobrar ligeiramente a amostra, antes de introduzir a ponta do anzol, para que esta não fique arqueada, o que prejudicaria o seu trabalhar). O anzol fica assim exposto e a amostra afunda lentamente, assumindo uma posição lateral que produz um movimento suave em espiral, irresistível em certas situações.

Com uma animação mais rápida (vários toques rápidos da ponteira com a cana baixa), esta amostra salta fora de água, como um pequeno peixe a tentar fugir desesperadamente do ataque de um predador. Nunca esquecerei a primeira vez que vi esta amostra a ser trabalhada correctamente, pelos nossos colegas, senhor Ventura Silva e senhor Hermínio Rodrigues, numa demonstração de pesca no Gorjão. A simulação de um peixe em fuga era de tal modo perfeita que não descansei enquanto não percebi como o conseguiam fazer.

Quando o peixe se encontra mais activo e mais perto da superfície, esta animação, seguida de pequenas pausas, produz excelentes resultados. Prefiro uma animação mais lenta quando o peixe se encontra menos activo, com as já referidas quedas lentas em espiral, um ou dois pequenos toques de ponteira, seguidos de uma nova pausa longa, tentando atrair a atenção de um peixe suspenso abaixo da superfície. Procuro simular um pequeno peixe a morrer, caindo lentamente para o fundo, mas que animado de alguns restos de energia, se tenta salvar nadando para a superfície, para depois sucumbir e deixar de novo afundar.

O Shad Assassin e Jerk Shad com a sua forma mais cilíndrica, têm mais peso e afundam um pouco mais rápidamente. Quando pretendo trabalhar a amostra mais rápidamente, sem esta saltar constantemente fora de água ou quando pretendo explorar as camadas de água mais abaixo da superfície tenho tendência a preferir este desenho.

A selecção do anzol reveste-se de grande importância, pois pode influenciar muito o trabalhar da amostra, bem como o sucesso da ferragem. A tendência inicial, perante algumas ferragens falhadas é a de aumentar o tamanho do anzol. Cheguei mesmo a utilizar um anzol 5/0, esperando melhorar a percentagem de peixes ferrados em ataques a esta amostra. Actualmente nunca ultrapasso o 3/0. Prefiro um anzol mais pequeno que permite maior liberdade de acção à amostra deixando-a trabalhar de forma o mais natural possível. Utilizo com frequência o anzol Gamakatsu Round Bend, pela sua eficácia na ferragem e pela espessura fina ( um anzol fino tem uma maior capacidade de penetração e a ponta arredondada não abre grandes sulcos na boca do peixe, como os anzóis de ponta facetada, que lhe permitem soltar-se no salto com maior facilidade). Evito anzóis muito grossos, a não ser que pretenda utilizar a amostra a maior profundidade, situação em que um maior peso pode ser desejável.

Actualmente, têm surgido pequenos pesos para colocar no anzol (belly weights) que permitem utilizar anzóis finos (ferragem eficiente) e utilizar a amostra em camadas inferiores (maior peso). A colocação do peso a meio do anzol, mantém o centro de gravidade e a posição correcta da amostra ao descer, por oposição à utilização de um pequeno jig (cabeçote do tipo darter head ou round ball jig), que coloca o peso à frente da amostra conduzindo-a de cabeça para o fundo. Outra alternativa, é a utilização de chumbos fendidos (do tipo para calibragem de bóia). Não sou adepto da utilização de chumbos fendidos na linha (slip-shotting) com este tipo de amostra, penso que prejudica o trabalhar natural da mesma e evito utilizá-los.

Para este tipo de amostra prefiro linhas finas que favorecem um lançamento longo e não prejudicam o comportamento da amostra. Normalmente utilizo uma linha de diâmetro 0,22 mm ou 0,24 mm (por oposição a outras técnicas em que nunca desço das 0,30 mm) e já cheguei a utilizar 0,20 mm e 0,18 mm com bastante sucesso em águas muito claras. Actualmente prefiro utilizar uma cana média de spinning com 1,80 m, para esta técnica, que possua bastante resistência no seu corpo central e seja muito flexível na ponteira. Já utilizei canas médias ligeiras para este tipo de pesca, canas mais flexíveis, de acção parabólica e com grande capacidade de lançamento. No entanto, o que eventualmente se ganha em distância de lançamento ( o que é importante em águas claras), perde-se em capacidade de ferragem, pelo que prefiro o compromisso actual. Não esquecer um bom carreto, com uma recuperação suave e rápida e com um bom travão.

Nunca se sabe, e por vezes encontramo-nos com um peixe acima dos dois quilos, enganado pelo shadow, na outra ponta de uma linha 0,18 mm !! Experimentem e boas pescarias !!

Jaime Sacadura

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