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Não é invulgar
reconhecer-se o pescador de Achigã iniciado pelo tipo de cana que
utiliza. Com efeito, a maioria tende a tentar utilizar canas que já
possuem, adaptadas a outros tipos de pesca, e que são claramente
inadequadas quando se trata de animar as amostras utilizadas na
pesca do Achigã.
Se o uso de canas com vários metros de
comprimento pode parecer inicialmente uma boa ideia, principalmente
nalgumas barragens que possuem faixas de vegetação mais cerrada
perto das margens, a animação desajeitada das amostras, as ferragens
pouco eficientes e o inevitável cansaço ao fim de pouco tempo de
pesca, desaconselham rapidamente a sua utilização.
Os materiais
Qual é, então, o tipo de cana ideal para
a pesca do Achigã com amostras artificiais?
Em primeiro lugar, uma cana específica
para pescar Achigãs precisa de ser eficaz na ferragem. As zonas
cartilaginosas mais rígidas da boca do Achigã são bastante
resistente à penetração dos anzóis e, com a maioria das amostras
utilizadas, é necessário efectuar uma ferragem sólida. Isso exclui à
partida, as canas fabricadas em fibra de vidro.
Não é invulgar encontrarmos nas grandes
superfícies comerciais e mesmo nalgumas lojas de pesca, canas
etiquetadas como sendo canas específicas para a pesca do Achigã, a
preços muito convidativos. O material utilizado nestas canas é a
fibra de vidro e consequentemente, estas não possuem a resistência
necessária para lançar e animar correctamente a maioria das amostras
que são utilizadas neste tipo de pesca. Mais importante ainda, estas
canas não possuem a resistência necessária para efectuar uma
ferragem eficaz. A sua utilização vai inevitavelmente provocar
grandes desilusões aos seus utilizadores que assistirão uma e outra
vez, ao espectacular salto de belos exemplares que acabam
inevitavelmente por se soltar da amostra com as primeiras oscilações
da cabeça.
Assim, uma cana para a pesca do Achigã
deve ser uma cana de carbono (high modulus graphite), um
material que a torna leve, extremamente sensível e simultaneamente
muito eficaz nas ferragens. Para determinadas técnicas, como os
crankbaits e os spinnerbaits, é preferível uma cana de
material composto de uma mistura de carbono e fibra de vidro (graphite
composite), o que confere maior resistência e simultaneamente
maior suavidade à acção da cana e que ajuda a evitar a perda de
peixe com este tipo de amostras.
Quanto mais carbono se utiliza na fabricação da cana, mais leve,
sensível e cara ela será. Como desvantagem, também será mais
susceptível a manipulações desajeitadas e um pequeno toque ou
microfractura resultará inevitavelmente na sua quebra.
A maior parte dos fabricantes utiliza
uma escala própria para indicar a quantidade de carbono utilizado
nas várias gamas de canas que produzem. Por exemplo, canas de
carbono de gama baixa do fabricante Bass Pro Shops, podem
possuir a designação IM-6 ou IM-7 e utilizam um teor de carbono
adequado para a utilização a que se destinam, mas serão
necessariamente, mais pesadas e menos sensíveis que as canas com
teores de carbono mais elevados, como as que possuem a designação
IM-8 (gama média da linha Bionic Blade) ou as que possuem
teores ainda mais elevados como as HM-60 (linha Extreme),
HM-70 ou HM-85 (da linha Johnny Morris).
Noutros casos, a tarefa de
conseguir saber o teor de carbono utilizado é bastante mais difícil.
Por vezes, apenas o preço dos vários modelos de um mesmo fabricante
nos pode dar uma ligeira noção e nestes casos, preços superiores
correspondem geralmente a teores de carbono mais elevados, mas é
necessário entrar em linha de conta com outros factores que fazem
variar o preço, como a qualidade e o número de passadores (mais
caros e leves, os de titânio), o tipo e qualidade do porta-carretos
e o material utilizado no punho (sendo a cortiça normalmente mais
cara que a espuma).
Os preços
Em termos gerais, uma cana de carbono de
gama média ou média baixa custará normalmente entre 70 e 120 euros
pelo menos, dependendo dos outros factores mencionados. Recentemente
têm surgido no mercado português, canas de qualidade muito aceitável
a preços razoáveis para o que é fornecido (entre os 120 e os 240
euros) e mesmo algumas canas topo de gama de fabricantes japoneses
que embora sejam excelentes em todos os domínios, atingem preços já
difíceis de comportar para a generalidade dos pescadores (entre os
400 e os 500 euros).
Quanto à questão, canas inteiriças versus canas em duas
partes, e embora os novos tipos de encaixe sejam cada vez mais
eficazes, continuam a ser preferíveis as canas inteiriças, muito
mais eficazes a transmitir todas as sensações até ao punho do
utilizador. A eventual maior comodidade de transporte de uma cana em
2 partes não compensa a menor sensibilidade e a menor eficácia no
lançamento e na ferragem que normalmente possuem. Além disso, as
canas em 2 partes correspondem quase sempre à gama mais baixa de
qualquer fabricante.
Dificilmente se pode encontrar um
pescador de Achigã minimamente experiente, a pescar com uma cana de
2 partes.
A dimensão da cana
As canas específicas para a pesca do
Achigã vão geralmente do 1,70m até quase 2,40m (de 5,9 pés até quase
8 pés), mas as mais utilizadas estão entre o 1,80m e os 2,10m.
A maioria dos pescadores de Achigã
prefere canas ligeiramente mais compridas, entre o 1,98m e os 2,10m
(6’6’’ até 7’), que facilitam o controlo do peixe após a ferragem,
mas que não são tão compridas que prejudiquem a animação das
amostras (uma animação das amostras com a ponteira baixa é muito
frequente neste tipo de pesca e uma cana de dimensões exageradas não
a permite de forma eficaz, principalmente no caso da pesca de
margem)
Para técnicas específicas como a pesca
com Jigs, as canas são geralmente maiores, para tornar mais
eficaz e mais longo, o lançamento de alta precisão (Flipping)
e podem atingir, neste caso, os 2,38m (7’ 10’’), possuindo, nalguns
casos, uma secção interna extensível para atingir essas dimensões, o
que facilita o seu transporte. Nas canas de gama média alta e alta,
a tendência recente dos fabricantes é para o desaparecimento dessa
secção extensível, pelas mesmas razões já apontadas no caso das
canas de 2 partes.
Spinning ou
Casting
Á medida que vão evoluindo, quase todos
pescadores de Achigã vão tendo a tendência de substituir os
conjuntos de spinning pelos de casting. As vantagens
principais são a maior precisão de lançamento (aspecto muito
importante neste tipo de pesca) e este tipo de material ser o mais
adequado para a utilização de linhas de maior diâmetro (essenciais
para capturar exemplares de peso elevado entre estruturas de rocha
cortante ou coberturas densas).
Entre as desvantagens estão, a maior
dificuldade inicial de manuseamento destes conjuntos de casting
e a possibilidade, sempre presente, de produzir "cabeleiras",
principalmente em lançamentos contra o vento, quando o peso da
amostra está mal regulado ou quando sucede um imprevisto no acto do
lançamento, o que não acontece no caso dos conjuntos de spinning.
Para linhas de menor diâmetro ou
amostras muito leves, o material de spinning continua, no
entanto, a ter o seu lugar assegurado. Para cada conjunto de
técnicas ou grupos de amostras existe assim, um tipo de equipamento
ideal para a sua utilização. As canas mais "genéricas" podem ser
suficientemente abrangentes para conseguir eficiência num leque
alargado de amostras e técnicas, mas nunca poderão superar a
eficácia de uma cana específica.
Canas para barco ou margem?
Embora, no essencial, o equipamento
utilizado na pesca embarcada seja o mesmo da pesca de margem, a
limitação de transporte que os pescadores de margem possuem, obriga
à selecção de 1 ou 2 conjuntos mais genéricos que possam cobrir a
maior parte das situações e possibilitem a utilização de um leque
mais ou menos alargado de soluções.
Claro que essa selecção depende de vários factores, como as
características da massa de água onde decorre a jornada de pesca
(tipo de estruturas e coberturas mais abundantes), do peso médio dos
Achigãs da mesma e até, eventualmente, da época do ano. Todos esses
factores influenciam o tipo de técnicas e amostras a utilizar e
consequentemente o tipo de equipamento a seleccionar.
Um conjunto de casting de acção
média pesada (Médium Hard - MH) será a escolha ideal numa
barragem conhecida pelos seus grandes exemplares, protegidos entre
coberturas densas, enquanto que um conjunto de spinning de
acção média (Médium - M) ou média ligeira (Médium Light
- ML) pode ser o eleito quando se trata de pescar com amostras leves
em barragens de águas transparentes, com poucos obstáculos e em que
o peso médio dos Achigãs ronda as 500 gramas.
Para o pescador embarcado, a tarefa é
mais simples e consiste em seleccionar e transportar na sua
embarcação, alguns conjuntos de spinning e de casting
que possam cobrir a maior parte do leque de situações de pesca que
poderá enfrentar em cada jornada de pesca.
Acção das Canas
Existe alguma dificuldade de
classificação das canas em função da sua acção. Essa dificuldade é
acrescida porque não existe um conjunto de regras claras que
regulamente e defina o tipo de acção que cada construtor pode
colocar no material que fabrica.
Embora a classificação das canas esteja
correcta na maior parte das situações, existem, por vezes,
diferenças significativas, devido essencialmente à relativa
subjectividade deste tipo de classificações.
Assim, uma cana de acção pesada (Hard
- H) de uma determinada marca, pode ser equivalente a uma cana de
acção média (Médium - M) de outro fabricante.
A classificação da acção das canas e
consequentemente a escolha por parte do pescador, deve ser feita
idealmente em função do diâmetro/resistência da linha e, do peso da
amostra que a cana foi concebida para utilizar. Esses valores,
normalmente inscritos na própria cana, são normalmente muito mais
fiáveis do que a classificação da acção.
Uma cana classificada como de acção
pesada (Hard), que indica como recomendação a utilização de
linhas com resistências entre as 16 e as 30 libras (cerca de 8 a 15
quilos) e amostras entre os 3/4 de onça e a onça e meia (cerca de 21
a 42 gramas), é uma cana provavelmente concebida para técnicas de
fundo "pesadas" como a pesca com Jigs em coberturas muito
densas, como árvores afundadas. Uma cana com estas características,
se for de boa qualidade, terá um conforto e uma eficácia de
utilização imbatível nesse tipo de técnicas, mas será, certamente,
extremamente inadequada para animar, por exemplo, pequenos jerkbaits
rígidos.

Por outro lado, uma cana para finesse
spinning de acção ultra ligeira (Ultra Light - UL) ou
ligeira (Light - L) preparada para linhas entre as 4 e as 10
libras (cerca de 2 a 5 quilos) e amostras com peso entre 1/16 e 1/4
de onça (cerca de 2 a 7 gramas) será ideal para animar pequenas
amostras de plástico mole com empates do tipo split-shot, mas
não conseguirá lançar e trabalhar eficazmente um spinnerbait
de 1/2 onça (cerca de 14 gramas) no meio de vegetação densa.
Por vezes surgem no mercado canas com
pretensões a acções mais abrangentes, que cobrem, portanto, um leque
mais alargado de soluções, mas estas devem ser obrigatoriamente de
muito boa qualidade, ou, na maioria dos casos, essa pretensão é
injustificada. Canas com acção mais abrangente, devem ser assim,
obrigatoriamente, canas de qualidade superior, para terem um
comportamento eficaz em toda a gama que anunciam.
Estrutura interna da cana e acção de
ponteira
Uma cana pode ser concebida
privilegiando uma acção de ponteira mais ou menos parabólica (tip
action) e consequentemente mais ou menos lenta. As canas em que
apenas cerca de 20 a 30 cm da ponteira dobram sob acção do peso da
amostra são normalmente classificadas como rápidas (Fast) ou
até extra rápidas (Extra Fast) enquanto que uma cana que
dobra quase até ao centro, é normalmente classificada com lenta (Slow).

Na maioria das situações, as canas em fibra de carbono (high
modulus graphite) com uma "espinha dorsal" resistente, capazes
de assegurar uma ferragem eficaz independentemente do tipo de acção
da cana e, com ponteiras rápidas e sensíveis, concebidas para poder
lançar as amostras sem esforço e com precisão, são as preferidas
pelos pescadores de Achigã.
As canas em material composto de uma
mistura de carbono e fibra de vidro (graphite composite),
construídas com acção de ponteira mais lenta e mais parabólicas, são
geralmente desenhadas para trabalhar amostras de reacção, como
crankbaits e spinnerbaits. Aqui não existe a necessidade de uma ferragem robusta, pois torna-se imperativo evitar rasgar as
cartilagens moles da boca do peixe, um fenómeno muito frequente
quando se utilizam este tipo de amostras, com canas demasiado
rígidas, exclusivamente em carbono e que é responsável pela perda de
muitos exemplares. Este tipo de canas, em tamanhos normalmente
elevados (2,10m ou mais), é mesmo utilizado de forma crescente para
animar amostras de superfície, como os passeantes,
exactamente pelas mesmas razões. De um modo geral, as canas mais
compridas e com acção mais parabólica, são mais eficazes na altura
de lutar com o peixe em zonas desobstruídas. O peixe cansa-se mais
rapidamente porque luta contra a cana e não contra o pescador.
Noutras situações, é mais importante utilizar uma cana mais rígida
quando é necessário, por exemplo, retirar rapidamente um exemplar de
peso elevado do meio de uma árvore.
Conclusão
A escolha de uma cana adequada para a
pesca do Achigã não é tarefa fácil. Dada a multiplicidade de
técnicas, de amostras, de tipos de linhas e de situações que o
pescador de Achigã enfrenta, não existe uma ferramenta única e ideal
para todas essas condições.
Essa é a principal razão para o elevado
número de conjuntos que o pescador de competição embarcada possui.
Para cada massa de água e para cada situação ele pode, assim,
seleccionar a ferramenta ideal que lhe confere maiores
possibilidades de sucesso na captura do Achigã.
Para o pescador de margem, a situação é
mais simples e simultaneamente mais restritiva, pois as limitações
de transporte obrigam-no a seleccionar um ou dois conjuntos mais
genéricos e necessariamente mais abrangentes. Estes devem ser, na
medida do possível, de boa qualidade para poderem ser eficazes nas
diversas condições que vão enfrentar.
Embora ainda existam situações em que
são comercializadas para a pesca do Achigã, canas claramente
inadequadas, nos últimos anos a evolução em termos de relação
qualidade/preço das canas disponíveis no mercado nacional tem sido
positiva, com muitos fabricantes como a Bass Pro Shops, Quantum,
Berkley, G-Loomis, Kistler, Major Craft, Evergreen, Team Daiwa,
Sakura e Vega, entre outros, a lançarem excelentes canas, que se
podem hoje encontrar na maioria das boas lojas de pesca.
Texto e Fotografias: Jaime Sacadura
(artigo publicado na revista Mundo da Pesca - nº 86 - Agosto de
2006 -
versão original em
.PDF)
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