|
Na
primeira parte deste artigo foram abordadas questões relacionadas
com a escolha e posicionamento dos transdutores e a capacidade de
distinção do tipo de fundo através de uma função do tipo "Grayline"
(variável consoante as marcas). Assim, constata-se que um fundo
duro, rochoso, devido à maior facilidade de reflexão do sinal,
apresentava o aspecto de uma linha cinzenta de maior espessura,
enquanto que um fundo mole, de areia ou lama, surgiria no ecrã, com
uma coloração mais escura (preta) e com menor espessura. As sondas
que apresentam um maior número de tons de cinzento, apresentam uma
imagem mais clara e mais fácil de interpretar no que à dureza do
fundo diz respeito.
Outra indicação que a
maior parte das sondas providas de um sensor adicional permite, é a
indicação da temperatura da água à superfície. Como sabemos esta
informação é fundamental em várias épocas do ano, para localizar
zonas onde o peixe se pode encontrar mais activo (por exemplo, zonas
mais quentes em períodos do ano mais frios) ou mais inactivo.
Durante o inverno a baixa temperatura reduz o metabolismo dos
achigãs. Estes, necessitam de muito menos alimento que em períodos
mais quentes do ano, o que os torna mais inactivos. No início da
primavera, o ter a capacidade de encontrar zonas da barragem com
água ligeiramente mais quente, podem fazer a diferença entre uma
excelente pescaria e uma "grade".
A sonda apenas nos
apresenta o valor da temperatura à superfície. A temperatura nas
camadas inferiores pode ser muito mais baixa. No verão, quando
aproveitamos um dia de calor para mergulhar, constatamos que apenas
a alguns metros da superfície, a temperatura é muito mais baixa.
Desde o final da
Primavera e até ao início do Outono (geralmente de Maio a Setembro –
embora variável de barragem para barragem), existe uma
estratificação entre as camadas superficiais mais quentes, claras e
oxigenadas (epilímnio ou epilimnion) e as camadas mais profundas,
escuras e mais frias (hipolímnio ou hipolimnion).
As sondas podem
apresentar a zona onde estas duas camadas de água se encontram e
onde a temperatura e o oxigénio variam rápidamente.
Esta zona é chamada
termoclina ou metalímnio, e geralmente apresenta-se à mesma
profundidade independentemente do contorno do fundo.
A importância de localizar a profundidade da termoclina deve-se à
maioria das espécies que consistem as presas preferirem localizar-se
próximo e acima desta linha, enquanto que os predadores (o achigã)
usualmente se encontram suspensos imediatamente abaixo ou à
profundidade desta linha, onde a luz (menor intensidade) e a taxa de
oxigénio são normalmente adequadas para eles. Abaixo desta zona, as
condições não são geralmente as ideais, nomeadamente no que ao
oxigénio diz respeito.
A termoclina constitui neste período do
ano, uma zona de autêntico tampão sob a qual a água como que
estagna, não sofrendo prácticamente qualquer oxigenação nos lagos
mais eutrofizados (com elevada produção orgânica).
A sua
localização permite, portanto, definir com mais eficácia a
profundidade a atingir com as amostras para tentar capturar peixes
que em determinados alturas do ano se podem encontrar suspensos e
mais difíceis de localizar.
Quase todas as sondas têm a capacidade
de localizar e apresentar a termoclina, desde que exista
estratificação das temperaturas numa determinada massa de água. No
entanto, a maioria só a apresentará se a sensibilidade for ajustada
manualmente e se desligaram as funções de identificação automática.
Quanto maior o diferencial de temperatura entre estas duas camadas
de água maior a densidade da representação da mesma no ecrã da sonda
(nalgumas situações podem existir várias camadas e várias linhas de
separação entre elas).
Operação e
automatismos
Como foi mencionado em
relação à identificação da termoclina, é geralmente necessário
desligar as funções de identificação automática e efectuar a gestão
da sonda em modo manual. Com efeito, no início da utilização de uma
sonda, a nossa tarefa é facilitada se mantivermos todas as funções
em modo automático. Á medida que nos familiarizarmos com a sua
operação devemos começar a utilizá-la em modo manual nalgumas das
suas funcionalidades, a saber:
 Identificação
Automática do peixe – Fish ID – Esta função permite
passar para o processador da sonda, a tarefa de tentar identificar
os ecos que encontra a meia água ou junto ao fundo. Aqueles que
estiverem de acordo com determinados parâmetros serão identificados
como peixes e surgirão no ecrã com o respectivo símbolo. Nalgumas
sondas estes símbolos podem apresentar diferentes tamanhos, de
acordo com a intensidade dos ecos, e até diferentes tons de
cinzento, consoante estejam localizados por debaixo da embarcação ou
mais para as laterais da mesma.
Nalguns casos, a apresentação do
símbolo de identificação do peixe é acompanhada de um sinal
sonoro, o que faz com que nalgumas zonas se assista a um autêntico
concerto, significando cardumes sucessivos de peixes.
Principalmente nas sondas de gama baixa, esta função não
corresponde na maioria das situações à identificação correcta de
ecos de peixe, como se pode fácilmente comprovar, em zonas de água
transparentes e de baixa profundidade. Se gosta de se sentir
incentivado perante situações de pesca frustante, é conveniente
deixá-la ligada para "animar" a jornada de pesca, mas não acredite
em tudo o que é apresentado.
Após ganhar experiência com a
utilização da sonda é conveniente desligar esta funcionalidade.
Nas sondas da gama média/alta, em que a resolução é
suficiente, é possível aprender a identificar correctamente os
ecos dos peixes. Estes apresentam-se como arcos nítidos,
correspondendo à dimensão do peixe, um arco maior ou menor em
comprimento e espessura.
Identificação de Arcos de peixe
– A maior ou menor dificuldade em os observar depende em grande
parte da resolução do ecrã da sonda, da profundidade e da
velocidade de apresentação dos dados.
A passagem de um peixe pela
extremidade do cone da sonda corresponde à apresentação de alguns
pixéis no ecrã. Á medida que o peixe se localiza no centro do
cone, a distância entre o barco e o peixe diminui, o que faz com
que os pixéis que representam o eco sejam apresentados a uma
profundidade ligeiramente inferior. Aqui o sinal é mais forte e o
arco é mais espesso. Ao prosseguir a deslocação do barco, o peixe
aproxima-se de novo da periferia do cone pelo que a distância ao
eco aumenta e no ecrã da sonda completa-se a apresentação do arco
(ver figura).

A baixa profundidade, o tempo que o
peixe está sob a acção do cone é tão curto que torna difícil a
apresentação de um arco. Geralmente, quanto mais profundo está o
peixe, mais fácil é a apresentação do arco. Uma velocidade
demasiado lenta ou demasiado rápida de apresentação da informação
no ecrã (velocidade de deslocamento dos dados – regulável na
maioria das sondas de gama média/alta), uma velocidade de
deslocação do barco demasiado alta (a deslocação à velocidade do
motor eléctrico é geralmente adequada), uma posição incorrecta do
transdutor (inclinado) ou uma sensibilidade da sonda demasiado
baixa, são factores que dificultam a visualização de arcos de
peixe.
Usando uma sonda com baixa resolução
de ecrã e a baixas profundidades é quase impossível distinguir
entre um qualquer eco provocado por um objecto em suspensão na
água e um peixe, como se pode comprovar nas imagens seguintes:

Baixa resolução (100 pixéis) Alta resolução (240 pixéis)
Para conseguir com sucesso observar
termoclinas, identificar arcos de peixe, cardumes de peixe-presa,
vegetação e identificar correctamente estruturas no fundo, não
hesite, desligue a função de identificação automática – Fish ID.
Sensibilidade – A maioria
das sondas da gama média/alta utiliza um processador avançado de
sinais (ASP – Advanced Signal Processor) que efectua
constantemente os ajustes necessários à sensibilidade da sonda
para compensar as variações de profundidade, velocidade da
embarcação, condições da água, etc.
Uma baixa sensibilidade não permite
apresentar e identificar a maior parte da informação do fundo,
apresentando um ecrã limpo de interferências e com poucos sinais.
Uma elevada sensibilidade permite um maior detalhe, mas quando em
exagero pode encher o ecrã de sinais indesejados tornando a
leitura e interpretação dos mesmos quase impossível.
Na maioria do tempo normal de
utilização da sonda, a função ASP deve permanecer ligada.
Apenas em determinadas situações é necessário, desligá-la e
ajustar manualmente a sensibilidade, por exemplo, baixando-a para
conseguir interpretar correctamente os ecos de uma zona com muita
suspensão.
Para verificar o bom funcionamento da
sonda e ajustar correctamente a sensibilidade é necessário ajustar
manualmente a escala de profundidade para o dobro. Na função
automática a escala de profundidade altera-se automáticamente de
modo a ajustar-se à profundidade da zona. Desligando a escala
automática pode seleccionar-se a escala fixa desejada – por
exemplo 40 ou 50 metros, mesmo que a profundidade da zona seja
apenas 10 metros, uma situação que colocaria a escala automática
nos 20 metros.
Aumentando manualmente a
sensibilidade, poderemos verificar o aparecimento de um duplo eco
de fundo, ao dobro da profundidade do fundo actual. Como a
sensibilidade está muito elevada, este segundo eco é causado pela
onda que ao regressar do fundo é reflectida pela superfície da
água, realiza novo trajecto até ao fundo e é captada pelo
transdutor. Como este segundo eco, demorou o dobro do tempo a ser
captado, é interpretado como estando ao dobro da profundidade.
Agora basta reduzir a sensibilidade
até voltar a ter apenas um único eco de fundo.
A imagem apresentará mais detalhe do
que em modo automático, com mais ecos no ecrã. Se ainda existir
muito "ruído", dificultando a leitura e a interpretação dos
sinais, basta reduzir ligeiramente a sensibilidade. Esta operação
(encontrar um duplo eco) deixa de ser necessária com a utilização,
conseguindo o utilizador mais experiente ajustar correctamente a
sensibilidade sem necessitar de a realizar.
Função tipo "Grayline" –
Pode ser necessário ajustar manualmente a sensibilidade desta
função, no caso de optar pela sensibilidade manual (ASP
desligado). Já que esta função faz a distinção entre os ecos
fortes e fracos, a sua operação depende da sensibilidade e pode
não apresentar fielmente a composição dos fundos ou distinguir a
vegetação, das árvores submersas.
Utilização do Zoom – Muitos
utilizadores ignoram por completo a utilização do Zoom,
desconhecendo que a ampliação de uma zona permite uma melhor
separação dos sinais. Esta operação permitirá identificar mais
fácilmente arcos de peixe, separar peixes próximos do fundo, das
estruturas ou vegetação e deve ser utilizada sempre que uma
estrutura mais complexa for localizada, pois nela pode
encontrar-se um peixe que passaria despercebido sem a utilização
do Zoom. Se suspeitar que um eco pode ser um peixe mas não surge
no ecrã como um arco, utilize o Zoom. Esta função corresponde a
aumentar efectivamente a resolução do ecrã, mostrando mais
fácilmente eventuais arcos correspondentes a peixes. Em
alternativa, pode alterar manualmente a escala, colocando o limite
superior mais perto da profundidade da zona onde se encontra. Por
exemplo, colocar o limite superior nos 5 metros numa zona de 10
metros de profundidade. Em vez da escala dos 0 aos 10 metros, a
apresentação no ecrã dos 5 aos 10 metros apresentará mais pormenor
na zona ampliada, embora não apresente a informação dos 0 aos 5
metros.
Nas sondas da gama média/alta, é também possível dividir o
ecrã em duas janelas, apresentado a vista normal numa delas,
enquanto na outra se pode apresentar uma vista mais ampliada
(Zoom) e mais pormenorizada do mesmo local (com mais detalhes do
fundo). Na imagem, a zona de Zoom é apresentada na janela da
esquerda.
Em resumo, para a maior parte das
situações que surgem no nosso tipo de pesca, é recomendável
possuir uma sonda da gama média ou média/alta, com uma resolução
não inferior a 160 pixéis na vertical que permita obter imagens de
arcos de peixe com fidelidade, uma potência suficiente para não
perder o contorno do fundo a alta velocidade e possuidora de
função tipo "Grayline" para distinguir o tipo de fundo. Se
pudermos gastar um pouco mais, quanto maior a resolução da sonda
(240x240), maior a nitidez da imagem e geralmente também maior a
sua potência.
Se optarmos por uma sonda da gama
baixa, não podemos geralmente esperar que a mesma consiga
apresentar arcos de peixe, fazer a distinção do tipo de fundos ou
manter a indicação do fundo nas deslocações a maior velocidade.
Usualmente, estas sondas estarão reservadas à indicação da
profundidade e do contorno do fundo em acção de pesca.
Recentemente a maior parte dos
fabricantes introduziu no mercado sondas de gama média com boa
prestação e resoluções mais elevadas. Por isso, compare preços,
características e acessórios antes de efectuar uma compra e adapte
o tipo de sonda ao tipo de pesca que realiza.
Na imagem, algumas sondas da gama
média e média/alta, disponíveis no mercado:
1- Garmin Fishfinder 160; 2- Lowrance
X-51; 3- Raytheon L265; 4- Hummingbird 400 TX;
5- Hummingbird Piranha 5; 6- Hummingbird Legend 2000; 7- Lowrance
X-71; 8- Raytheon L470;
9- Garmin FishFinder 240
Jaime Sacadura
(artigo publicado em 2003 na revista Achigã nº 24 e 25)
Voltar >>
|