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  Artigos - Técnicas
 "A escolha de uma Sonda - Parte II"
 
 

 Na primeira parte deste artigo foram abordadas questões relacionadas com a escolha e posicionamento dos transdutores e a capacidade de distinção do tipo de fundo através de uma função do tipo "Grayline" (variável consoante as marcas). Assim, constata-se que um fundo duro, rochoso, devido à maior facilidade de reflexão do sinal, apresentava o aspecto de uma linha cinzenta de maior espessura, enquanto que um fundo mole, de areia ou lama, surgiria no ecrã, com uma coloração mais escura (preta) e com menor espessura. As sondas que apresentam um maior número de tons de cinzento, apresentam uma imagem mais clara e mais fácil de interpretar no que à dureza do fundo diz respeito.

Outra indicação que a maior parte das sondas providas de um sensor adicional permite, é a indicação da temperatura da água à superfície. Como sabemos esta informação é fundamental em várias épocas do ano, para localizar zonas onde o peixe se pode encontrar mais activo (por exemplo, zonas mais quentes em períodos do ano mais frios) ou mais inactivo. Durante o inverno a baixa temperatura reduz o metabolismo dos achigãs. Estes, necessitam de muito menos alimento que em períodos mais quentes do ano, o que os torna mais inactivos. No início da primavera, o ter a capacidade de encontrar zonas da barragem com água ligeiramente mais quente, podem fazer a diferença entre uma excelente pescaria e uma "grade".

A sonda apenas nos apresenta o valor da temperatura à superfície. A temperatura nas camadas inferiores pode ser muito mais baixa. No verão, quando aproveitamos um dia de calor para mergulhar, constatamos que apenas a alguns metros da superfície, a temperatura é muito mais baixa.

Desde o final da Primavera e até ao início do Outono (geralmente de Maio a Setembro – embora variável de barragem para barragem), existe uma estratificação entre as camadas superficiais mais quentes, claras e oxigenadas (epilímnio ou epilimnion) e as camadas mais profundas, escuras e mais frias (hipolímnio ou hipolimnion).

As sondas podem apresentar a zona onde estas duas camadas de água se encontram e onde a temperatura e o oxigénio variam rápidamente.

Esta zona é chamada termoclina ou metalímnio, e geralmente apresenta-se à mesma profundidade independentemente do contorno do fundo.

A importância de localizar a profundidade da termoclina deve-se à maioria das espécies que consistem as presas preferirem localizar-se próximo e acima desta linha, enquanto que os predadores (o achigã) usualmente se encontram suspensos imediatamente abaixo ou à profundidade desta linha, onde a luz (menor intensidade) e a taxa de oxigénio são normalmente adequadas para eles. Abaixo desta zona, as condições não são geralmente as ideais, nomeadamente no que ao oxigénio diz respeito.

A termoclina constitui neste período do ano, uma zona de autêntico tampão sob a qual a água como que estagna, não sofrendo prácticamente qualquer oxigenação nos lagos mais eutrofizados (com elevada produção orgânica).

A sua localização permite, portanto, definir com mais eficácia a profundidade a atingir com as amostras para tentar capturar peixes que em determinados alturas do ano se podem encontrar suspensos e mais difíceis de localizar.

Quase todas as sondas têm a capacidade de localizar e apresentar a termoclina, desde que exista estratificação das temperaturas numa determinada massa de água. No entanto, a maioria só a apresentará se a sensibilidade for ajustada manualmente e se desligaram as funções de identificação automática. Quanto maior o diferencial de temperatura entre estas duas camadas de água maior a densidade da representação da mesma no ecrã da sonda (nalgumas situações podem existir várias camadas e várias linhas de separação entre elas).

Operação e automatismos

Como foi mencionado em relação à identificação da termoclina, é geralmente necessário desligar as funções de identificação automática e efectuar a gestão da sonda em modo manual. Com efeito, no início da utilização de uma sonda, a nossa tarefa é facilitada se mantivermos todas as funções em modo automático. Á medida que nos familiarizarmos com a sua operação devemos começar a utilizá-la em modo manual nalgumas das suas funcionalidades, a saber:

Identificação Automática do peixeFish ID – Esta função permite passar para o processador da sonda, a tarefa de tentar identificar os ecos que encontra a meia água ou junto ao fundo. Aqueles que estiverem de acordo com determinados parâmetros serão identificados como peixes e surgirão no ecrã com o respectivo símbolo. Nalgumas sondas estes símbolos podem apresentar diferentes tamanhos, de acordo com a intensidade dos ecos, e até diferentes tons de cinzento, consoante estejam localizados por debaixo da embarcação ou mais para as laterais da mesma.

Nalguns casos, a apresentação do símbolo de identificação do peixe é acompanhada de um sinal sonoro, o que faz com que nalgumas zonas se assista a um autêntico concerto, significando cardumes sucessivos de peixes. Principalmente nas sondas de gama baixa, esta função não corresponde na maioria das situações à identificação correcta de ecos de peixe, como se pode fácilmente comprovar, em zonas de água transparentes e de baixa profundidade. Se gosta de se sentir incentivado perante situações de pesca frustante, é conveniente deixá-la ligada para "animar" a jornada de pesca, mas não acredite em tudo o que é apresentado.

Após ganhar experiência com a utilização da sonda é conveniente desligar esta funcionalidade. Nas sondas da gama média/alta, em que a resolução é suficiente, é possível aprender a identificar correctamente os ecos dos peixes. Estes apresentam-se como arcos nítidos, correspondendo à dimensão do peixe, um arco maior ou menor em comprimento e espessura.

Identificação de Arcos de peixe – A maior ou menor dificuldade em os observar depende em grande parte da resolução do ecrã da sonda, da profundidade e da velocidade de apresentação dos dados.

A passagem de um peixe pela extremidade do cone da sonda corresponde à apresentação de alguns pixéis no ecrã. Á medida que o peixe se localiza no centro do cone, a distância entre o barco e o peixe diminui, o que faz com que os pixéis que representam o eco sejam apresentados a uma profundidade ligeiramente inferior. Aqui o sinal é mais forte e o arco é mais espesso. Ao prosseguir a deslocação do barco, o peixe aproxima-se de novo da periferia do cone pelo que a distância ao eco aumenta e no ecrã da sonda completa-se a apresentação do arco (ver figura).

 

A baixa profundidade, o tempo que o peixe está sob a acção do cone é tão curto que torna difícil a apresentação de um arco. Geralmente, quanto mais profundo está o peixe, mais fácil é a apresentação do arco. Uma velocidade demasiado lenta ou demasiado rápida de apresentação da informação no ecrã (velocidade de deslocamento dos dados – regulável na maioria das sondas de gama média/alta), uma velocidade de deslocação do barco demasiado alta (a deslocação à velocidade do motor eléctrico é geralmente adequada), uma posição incorrecta do transdutor (inclinado) ou uma sensibilidade da sonda demasiado baixa, são factores que dificultam a visualização de arcos de peixe.

Usando uma sonda com baixa resolução de ecrã e a baixas profundidades é quase impossível distinguir entre um qualquer eco provocado por um objecto em suspensão na água e um peixe, como se pode comprovar nas imagens seguintes:

Baixa resolução (100 pixéis) Alta resolução (240 pixéis)

Para conseguir com sucesso observar termoclinas, identificar arcos de peixe, cardumes de peixe-presa, vegetação e identificar correctamente estruturas no fundo, não hesite, desligue a função de identificação automática – Fish ID.

Sensibilidade – A maioria das sondas da gama média/alta utiliza um processador avançado de sinais (ASP – Advanced Signal Processor) que efectua constantemente os ajustes necessários à sensibilidade da sonda para compensar as variações de profundidade, velocidade da embarcação, condições da água, etc.

Uma baixa sensibilidade não permite apresentar e identificar a maior parte da informação do fundo, apresentando um ecrã limpo de interferências e com poucos sinais. Uma elevada sensibilidade permite um maior detalhe, mas quando em exagero pode encher o ecrã de sinais indesejados tornando a leitura e interpretação dos mesmos quase impossível.

Na maioria do tempo normal de utilização da sonda, a função ASP deve permanecer ligada. Apenas em determinadas situações é necessário, desligá-la e ajustar manualmente a sensibilidade, por exemplo, baixando-a para conseguir interpretar correctamente os ecos de uma zona com muita suspensão.

Para verificar o bom funcionamento da sonda e ajustar correctamente a sensibilidade é necessário ajustar manualmente a escala de profundidade para o dobro. Na função automática a escala de profundidade altera-se automáticamente de modo a ajustar-se à profundidade da zona. Desligando a escala automática pode seleccionar-se a escala fixa desejada – por exemplo 40 ou 50 metros, mesmo que a profundidade da zona seja apenas 10 metros, uma situação que colocaria a escala automática nos 20 metros.

Aumentando manualmente a sensibilidade, poderemos verificar o aparecimento de um duplo eco de fundo, ao dobro da profundidade do fundo actual. Como a sensibilidade está muito elevada, este segundo eco é causado pela onda que ao regressar do fundo é reflectida pela superfície da água, realiza novo trajecto até ao fundo e é captada pelo transdutor. Como este segundo eco, demorou o dobro do tempo a ser captado, é interpretado como estando ao dobro da profundidade.

Agora basta reduzir a sensibilidade até voltar a ter apenas um único eco de fundo.

A imagem apresentará mais detalhe do que em modo automático, com mais ecos no ecrã. Se ainda existir muito "ruído", dificultando a leitura e a interpretação dos sinais, basta reduzir ligeiramente a sensibilidade. Esta operação (encontrar um duplo eco) deixa de ser necessária com a utilização, conseguindo o utilizador mais experiente ajustar correctamente a sensibilidade sem necessitar de a realizar.

Função tipo "Grayline" – Pode ser necessário ajustar manualmente a sensibilidade desta função, no caso de optar pela sensibilidade manual (ASP desligado). Já que esta função faz a distinção entre os ecos fortes e fracos, a sua operação depende da sensibilidade e pode não apresentar fielmente a composição dos fundos ou distinguir a vegetação, das árvores submersas.

Utilização do Zoom – Muitos utilizadores ignoram por completo a utilização do Zoom, desconhecendo que a ampliação de uma zona permite uma melhor separação dos sinais. Esta operação permitirá identificar mais fácilmente arcos de peixe, separar peixes próximos do fundo, das estruturas ou vegetação e deve ser utilizada sempre que uma estrutura mais complexa for localizada, pois nela pode encontrar-se um peixe que passaria despercebido sem a utilização do Zoom. Se suspeitar que um eco pode ser um peixe mas não surge no ecrã como um arco, utilize o Zoom. Esta função corresponde a aumentar efectivamente a resolução do ecrã, mostrando mais fácilmente eventuais arcos correspondentes a peixes. Em alternativa, pode alterar manualmente a escala, colocando o limite superior mais perto da profundidade da zona onde se encontra. Por exemplo, colocar o limite superior nos 5 metros numa zona de 10 metros de profundidade. Em vez da escala dos 0 aos 10 metros, a apresentação no ecrã dos 5 aos 10 metros apresentará mais pormenor na zona ampliada, embora não apresente a informação dos 0 aos 5 metros.

Nas sondas da gama média/alta, é também possível dividir o ecrã em duas janelas, apresentado a vista normal numa delas, enquanto na outra se pode apresentar uma vista mais ampliada (Zoom) e mais pormenorizada do mesmo local (com mais detalhes do fundo). Na imagem, a zona de Zoom é apresentada na janela da esquerda.

Em resumo, para a maior parte das situações que surgem no nosso tipo de pesca, é recomendável possuir uma sonda da gama média ou média/alta, com uma resolução não inferior a 160 pixéis na vertical que permita obter imagens de arcos de peixe com fidelidade, uma potência suficiente para não perder o contorno do fundo a alta velocidade e possuidora de função tipo "Grayline" para distinguir o tipo de fundo. Se pudermos gastar um pouco mais, quanto maior a resolução da sonda (240x240), maior a nitidez da imagem e geralmente também maior a sua potência.

Se optarmos por uma sonda da gama baixa, não podemos geralmente esperar que a mesma consiga apresentar arcos de peixe, fazer a distinção do tipo de fundos ou manter a indicação do fundo nas deslocações a maior velocidade. Usualmente, estas sondas estarão reservadas à indicação da profundidade e do contorno do fundo em acção de pesca.

Recentemente a maior parte dos fabricantes introduziu no mercado sondas de gama média com boa prestação e resoluções mais elevadas. Por isso, compare preços, características e acessórios antes de efectuar uma compra e adapte o tipo de sonda ao tipo de pesca que realiza.

Na imagem, algumas sondas da gama média e média/alta, disponíveis no mercado:

1- Garmin Fishfinder 160; 2- Lowrance X-51; 3- Raytheon L265; 4- Hummingbird 400 TX;
5- Hummingbird Piranha 5; 6- Hummingbird Legend 2000; 7- Lowrance X-71; 8- Raytheon L470;
9- Garmin FishFinder 240

Jaime Sacadura
(artigo publicado em 2003 na revista Achigã nº 24 e 25)

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