Realizou-se no passado dia 22 e 23 de Setembro de 2007, na Barragem
do Alqueva, mais uma edição do Clássico Achigã.
Na antevisão do
Clássico Achigã 2007 que escrevi para a revista Mundo da Pesca,
previa uma prova difícil e complicada, com um número elevado de
equipas a não conseguir capturar nenhum exemplar. Essa previsão era
baseada nos resultados das provas realizadas no Alqueva ao longo do
ano e nos treinos que muitas equipas realizaram nas semanas antes da
prova. Infelizmente não me enganei.
O nível de
dificuldade em localizar alguns peixes com medida nos treinos era de
tal modo elevado que um dos elementos da equipa vencedora do
Clássico de 2006, César Pecellin, conseguiu apenas
capturar 3 exemplares em 3 dias de treino, no fim-de-semana anterior
à prova. Outros pescadores conceituados como Toshinari Namiki,
um profissional japonês com um largo curriculum de vitórias no Japão
e nos USA, conseguiu apenas um único exemplar no primeiro dia em que
treinou, embora este pesasse 1,700 kg. Algumas equipas espanholas e
outras portuguesas, como os campeões nacionais Mário Nelson e
Luís Palma, chegaram a efectuar treinos ao longo das 3-4
semanas que antecederam o Clássico e embora num dia muito bom,
algumas destas equipas conseguissem um limite de 5 exemplares entre
os 7 e os 8 kg de peso, esses dias eram a excepção e não a regra.
Munidos destas
informações, a maioria das equipas inscritas na prova,
principalmente as que já tinham pescado em Alqueva em anos
anteriores, prepararam-se para jornadas de pesca muito difíceis onde
a captura de 5 exemplares diários asseguraria sempre uma excelente
classificação. Na maioria dos casos, a táctica passava por encontrar
zonas menos pescadas com algum peixe. Algumas equipas optaram, por
exemplo, em localizar cabeços submersos afastados das margens que se
encontrassem a uma profundidade acessível (entre os 5 e os 10
metros) e que idealmente possuíssem algumas estruturas que ajudassem
a fixar o peixe. Depois de detectadas, estas zonas eram
imediatamente marcadas no GPS para facilitar a sua localização
durante a prova. Cobrir muita água com amostras rápidas, como
spinnerbaits e crankbaits, táctica que produzia, em anos
anteriores, resultados aceitáveis, parecia uma receita para o
desastre, pois o Alqueva dos dias de hoje apresenta largas áreas que
parecem completamente desertas de peixe com medida. Após 4 ou 5
horas deste tipo de pesca, o resultado mais provável era não
conseguir obter nenhum exemplar com medida.
A barragem
apresentava também, nalgumas zonas, um número muito elevado de
peixes de pequena dimensão (10-12cm), noutras áreas capturavam-se
alguns exemplares de dimensão média (500-700 gramas) e
ocasionalmente surgiam grandes exemplares acima do 1,5 kg que se iam
capturando mas de forma totalmente aleatória, quer em termos de
técnicas/amostras, quer em termos de locais, o que tornava quase
impossível a definição de um padrão.
Esta situação
permite explicar a irregularidade de capturas da maioria das equipas
ao longo dos 2 dias de prova, com muitas a conseguir uma única
captura de boa dimensão, geralmente um peixe acima do 1 kg -1,5 kg e
outro(s) mais pequeno(s).
1º dia de prova
No final do 1º
dia de prova, 3 equipas espanholas ocupavam os 3 primeiros lugares.
Na liderança, JoséAntónio Collado e Balbino Vico, uma das melhores equipas espanholas do País
vizinho, destacavam-se com 7 kg em 5 exemplares que capturaram na
zona da Amieira.
As técnicas
utilizadas, foram muito diversificadas, com os maiores exemplares a
serem capturados com crankbait,
spinnerbait, empate Texas e amostras de superfície. Depois
destas 3 equipas, surgia a primeira equipa portuguesa, actualmente a
mais regular no Alqueva, constituída por Joaquim Moio
e João Grosso. Todas estas equipas conseguiram
ultrapassar os 5 kg de peso e todas conseguiram capturar 5
exemplares. Na 5ª posição, outra dupla portuguesa, Nuno
Pinheiro e Luís Caeiro, embora com 5 capturas,
já se encontravam a mais de 1,5 kg da 3ª posição.
Após estas 5
equipas seguiam mais 9 com mais de 3 kg de peso. Entre elas, a
equipa de profissionais americanos, constituída por Stacey
King e Mark Curry. Apesar de não terem podido
efectuar qualquer treino antes da prova, e se terem limitado a um
reconhecimento visual da barragem apoiado nos mapas disponíveis
conseguiram capturar 5 exemplares que pesaram 3,660 kg e ocupavam a
7ª posição no final do 1º dia.
Algumas equipas
conseguiram capturar poucos exemplares mas de boa dimensão (peixes
acima do 1,5 kg). Nalguns casos, os relatos dessas capturas,
apontavam, ao contrário do que seria de esperar, para ataques muito
próximo da superfície a crankbaits, spinnerbaits e amostras moles
empatadas à Texas. De um modo geral as equipas que apostaram nas
zonas mais profundas e nas técnicas mais subtis (finesse) para
conseguirem mais toques e mais capturas, não obtiveram sucesso,
trazendo à pesagem, poucos exemplares e de pequena dimensão.
As 110 equipas
em prova capturaram, nesta 1ª manga um total de 196 exemplares que
pesaram 160 kg. Neste primeiro dia, 28 equipas não conseguiram
qualquer exemplar com a medida mínima de 27 cm, figurando entre
elas, os profissionais japoneses Seiji Kato e
Hiroshi Takahashi que já tinham participado na edição de
2006 e em que tinham capturado 5 exemplares em cada dia de prova. César Pecellin Munoz e Juan António Vigara,
insistindo na área em que tinham vencido o Clássico no ano passado,
conseguiam apenas capturar 2 exemplares que totalizaram 520 gramas o
que atesta bem da dificuldade da prova e da importância da selecção
dos locais a pescar e das técnicas a utilizar para aumentar as
hipóteses de sucesso.
2º dia de prova
O amanhecer
deste 2º dia de prova brindou os participantes com um nevoeiro
cerrado que punha em risco a deslocação com o motor de combustão
dada a conhecida perigosidade do Alqueva e aos inúmeros baixios
rochosos que possui. Mesmo com a ajuda do GPS, muitas equipas
sentiram-se algo intimidadas e optaram por pescar nas enseadas
situadas na proximidade do paredão. Foi o que fizeram os franceses
Channy Chamels e Patrick Meyronet que
utilizando amostras de superfície, conseguiram o limite de 5
exemplares com um total de 6,430 kg em menos de uma hora e meia de
prova. Após o desaparecimento do nevoeiro deixarem de conseguir
capturas, mas as capturas efectuadas garantiram-lhes um 3º lugar na
manga e um excelente 9º lugar na geral, principalmente se
considerarmos que esta equipa não lograra capturar qualquer exemplar
no 1º dia da competição.
Este tipo de
situação foi relatado por vários participantes que conseguiram
várias capturas de boa dimensão nas primeiras horas desta manga, com
técnicas diversas, como as amostras de superfície (com especial
relevo para os passeantes e para os buzzbaits), os crankbaits e os
spinnerbaits. Stacey King e Mark Curry também optaram
por começar relativamente perto do local de partida, e as capturas
com amostras de superfície foram-se sucedendo. Um passeante da marca
Zara Spook com mais de 50 anos, um buzzbait e um spinnerbait, ambos
de cor branca, foram os responsáveis pelas maiores capturas desta
equipa que insistiram, com sucesso, em bater muita água, pescando
essencialmente à superfície durante praticamente todo o tempo de
prova. 5 exemplares que pesaram 6,580 kg deram, a esta equipa de
profissionais americanos, o 2º lugar na manga e asseguraram um 2º
lugar na geral com um total de 10,240 kg.
Os vencedores do
primeiro dia, José António Collado e Balbino
Vico, enfrentaram uma Amieira muito mais complicada, com
capturas mais difíceis e de menor porte. Um grande exemplar a rondar
os 2 kg que atacou um spinnerbait, poderia eventualmente ter-lhes
dado a vitória na prova, mas a força habitual dos peixes deste
calibre é difícil de contrariar e este conseguiu refugiar-se numa
árvore de onde foi impossível de retirar.
Aliás, a perda de exemplares de grande porte foi uma constante nas
conversas dos participantes no final da prova. A nossa equipa que
conseguiu um 4º lugar, nesta 2º manga, com 5,280kg em 4 exemplares
(que acabariam por nos classificar no 5º lugar na geral), capturou 2
exemplares a rondar os 2 kg com crankbait e empate Texas com
lagostim e viu fugir um do mesmo calibre no 1º dia de prova que
conseguiu partir a linha ao refugiar-se numas rochas próximas.
A força
destes grandes exemplares é simplesmente impressionante e quando são
capturados muito perto de estruturas rochosas e coberturas densas,
como acontece com frequência em certos locais do Alqueva, é
extremamente difícil contrariá-los com sucesso. O hábito dos
pescadores norte-americanos de subir o diâmetro das linhas
utilizadas quando pescam grandes exemplares nestas condições tem que
passar a ser também uma constante entre os pescadores europeus para
ajudar a evitar estas situações.
Joaquim
Moio e João Grosso voltaram a mostrar a sua regularidade
capturando 5 exemplares que pesaram 4,080kg e lhes deram um 5º lugar
na manga e o 4º lugar na geral, mas a grande surpresa da jornada
estava reservada para a pesagem da dupla Bruno Nazareth e João
Pedro Neves, os vice-campeões nacionais. Com um modesto 54º
posto na 1º manga, conseguido com 3 exemplares que pesaram 1,380 kg
(embora segundo os próprios, perderam vários bons exemplares que
lhes partiram a linha neste primeiro dia), não se estava à espera
dos incríveis 9,370 kg que conseguiram nesta 2º manga (uma média de
1,870 kg por exemplar) e que vieram a proporcionar-lhes a vitória
final com 10,750 kg (mais 510 gramas que a dupla norte-americana).
Bons
conhecedores do Alqueva, insistiram nos mesmos locais de pesca da
véspera, desta vez utilizando essencialmente spinnerbaits e amostras
de superfície e lograram obter assim um excelente nível de capturas
logo nas primeiras horas de prova. Esta dupla veio provar que um bom
dia de pesca no Alqueva pode proporcionar resultados difíceis de
igualar noutras barragens e que esta massa de água tem mesmo
condições de ser a melhor da Europa.
Conclusão
Em termos de
resultados globais, no entanto, este Clássico veio confirmar a
tendência de curva descendente para o Alqueva que se vem notando ano
após ano. O peso total de peixe capturado e o número total de
exemplares capturados diminuiu substancialmente (mesmo com mais
equipas a pescar) e a média de 3,3 exemplares capturados por equipa
este ano, foi muito inferior aos quase 7 exemplares por equipa do
ano anterior. 536 exemplares foram capturados na edição do ano
passado contra 364 este ano. A média de peso dos exemplares
capturados subiu dos 640 gramas em 2006 para 820 gramas na edição
deste ano, o que não é de estranhar, mas o número de equipas sem
qualquer captura nos dois dias de prova aumentou, como previsto, de
zero equipas em 2006 para 23 equipas sem peixe em 2007. No 2º dia,
registaram-se mesmo 40 equipas sem qualquer captura com a medida
mínima, o que não se pode explicar apenas com um mau dia de pesca,
pois, pelo contrário, as condições atmosféricas até ajudaram a
proporcionar mais capturas do que seria de esperar.
Em suma, temos
todas as condições para termos a melhor prova da Europa de Pesca ao
Achigã. Temos um nível de organização elevado que foi elogiado por
pescadores profissionais habituados a eventos de grande dimensão.
Temos várias centenas de pescadores, de vários pontos do globo,
interessados em participar no Clássico todos os anos. Temos uma
massa de água excepcional em termos de dimensão e variedade de
condições de pesca e temos um conjunto de autarquias e
patrocinadores que perceberam, finalmente, a importância de uma
prova desta dimensão para o desenvolvimento turístico e económico
desta região.
Infelizmente, a
atitude da maioria dos pescadores portugueses que se recusam a
praticar o Pescar e Libertar e levam para casa tudo o que capturam,
com ou sem medida legal e o desinteresse das autoridades oficiais
que têm a responsabilidade de gerir esta e outras massas de água e
que podiam e deviam tomar medidas para proteger o peixe, como a
recolha selectiva dentro de determinados limites de tamanho, acabará
quase inevitavelmente por tornar desinteressante aquela que poderia
ser a melhor barragem da Europa para a prática desta modalidade.
Espero
sinceramente estar enganado. O futuro o dirá. Entretanto, parabéns
aos vencedores, a todos os participantes e à excelente organização a
cargo da APPA. Até para o ano, no Clássico Achigã 2008.